Sindicalismo Policial

Por Carlos Nascimento 05/02/2018 - 14:02

Reflexões de um velho sindicalista
O objetivo principal de um sindicato - seja patronal ou de trabalhadores -, é de lutar em defesa dos direitos dos SEUS FILIADOS. 

Assim, não poderia deixar de ser diferente com os profissionais de polícia, constituindo-se o sindicato na sua única e verdadeira entidade representativa, capaz de aglutinar tal categoria e, com liderança e organização, defender o interesse coletivo.  

Podemos assegurar que isso ocorreu no passado, quando não havia atrelamento ao governo. O sindicalismo de então era a antítese do atual. Não temíamos nadar contra a corrente. Havia o compromisso, por razões ideológicas, de preservar nossos princípios e ideais, na luta por um sindicato livre e independente, sem quaisquer amarras.

Antes do surgimento da representação sindical, a Polícia Civil vivia um clima de total autoritarismo, herança da época cinzenta da repressão. Com a criação dos sindicatos, várias barreiras foram rompidas e a nossa geração iniciou o processo de democratização e mobilização na Polícia Civil, a partir da vigência da Constituição Federal de 1988.

A Polícia Civil serviu aos militares no período da repressão, utilizando todos os métodos do regime militar, contra aquelas pessoas ou instituições que contestavam suas ideias. Foi uma luta traumática, difícil, contra uma concepção ideológica implantada num órgão de caráter civil, mas que conservava e praticava todos os métodos utilizados pelo regime militar, perseguindo e torturando quem não aceitasse suas práticas injustas, em flagrante desrespeito aos princípios democráticos. 

A força da nossa organização obrigou os dirigentes da Polícia Civil e o governo a reconhecerem que o Sindicalismo na Polícia era uma realidade, quando então passaram a nos respeitar e entender que estávamos vivendo em um Estado Democrático de Direito. Entenderam que não nos intimidaríamos nem recuaríamos diante de perseguições e ameaças. Coragem e disposição para lutar não nos faltaram e marcaram a nossa luta na história do movimento sindical policial.

Quando os Sindicatos foram criados, muitos dirigentes sindicais foram perseguidos. Na época áurea da “caça às bruxas”, tornou-se praxe a instauração de Processos Administrativos Disciplinares e Sindicâncias, procedimentos de caráter revanchista meramente intimidativos, até porque o comportamento servil de alguns delegados, significava maior soma de pontos nas promoções. Nominá-los seria desnecessário, pois entendemos que não há melhor julgador que a própria consciência. O fato é que jamais calaram a nossa voz. Vale lembrar que o sindicalismo de hoje sobrevive à base de e-mails, reuniões inexpressivas, entre seus próprios pares e o governo, quando o correto seria a convocação prévia e em local específico, que consiga aglutinar a totalidade dos servidores que representa. Não se faz sindicalismo com as portas fechadas.

Algumas Sindicâncias puniram com suspensão vários colegas, outros tiveram prisão decretada, suspensão de salários, transferências e até demissão, como Crispiniano Daltro e Antônio Marcos, entre outros.

Vencemos todas as batalhas e continuamos a luta com a mesma coragem e disposição. Atualmente, ainda existem alguns focos reacionários, que numa clara demonstração de contaminação do saudosismo de um período autoritário, teimam em perseguir quem se contrapõe a suas práticas.

Estivemos sempre na luta, nos movimentos locais e nacionais, participamos da Comissão que formatou a Lei de Reestruturação da Polícia Civil, que posteriormente e na calada da noite foi modificada e apelidada de Lei Orgânica, que não atende aos seus profissionais, mas altamente propícia para criação de inúmeros cargos de Chefia para os Delegados.

Apesar da exigência do terceiro grau para ingresso nos cargos da carreira policial, o salário continua sendo de nível médio. 

Participamos ativamente da primeira greve conjunta das Polícias Civil e Militar, onde a maioria não acreditava fosse possível, sem contar inúmeras outras paralisações. Fizemos parte ainda do Conselho de Assistência ao Servidor, representando a categoria dos trabalhadores da segurança pública.   

Temos a certeza que fizemos a nossa parte, ou seja, despertamos no policial civil a consciência do trabalhador, semeando a cultura da luta sindical no seu seio e deixando um caminho para os que vieram depois, mesmo que estes tenham trilhado caminhos opostos.

Não poderia deixar de lembrar companheiros que sempre estiveram na luta por uma instituição respeitada, valorizada e policiais cidadãos, a exemplo dos companheiros Crispiniano Daltro, Jorge Araújo, Jorge Barretto, Gerluiz Paixão e outros, que de alguma maneira tiveram participação ativa na luta.  CABE AO TEMPO E A CATEGORIA O JULGAMENTO.
Carlos Nascimento (Policial Civil)