A MORTE E A MORTE DE MARIELLE

Por Erick Cerqueira 30/03/2018 - 09:33

Em um ano de eleição, uma pessoa denuncia às ações criminosas de “milícias” no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois ela sofre uma emboscada em seu carro e é executada, à sangue frio, com vários tiros. Sim, sei que todos lembraram da famosa cena do filme Tropa de Elite 2. 
No mesmo filme, um professor e ativista dos Direitos Humanos, se transforma em político de um partido de Esquerda. O personagem, Deputado Fraga, foi inspirado na história de Marcelo Freixo, deputado do PSOL, pelo Rio de Janeiro.

Infelizmente precisamos falar sobre política, Direitos Humanos, redes sociais, mentiras e uma sociedade doente para falarmos sobre a história de uma pessoa assassinada. 
Marielle Franco era a 5ª vereadora mais votada da cidade do Rio de Janeiro e representante perfeita das minorias sociais. Mulher, negra, bissexual e saída da favela. Um prato cheio para ser alvo dos preconceitos mais presentes na nossa sociedade. Porém, seu perfil combativo e forte, não se intimidava ante o machismo, racismo, homofobia e a discriminação social. Marielle escolheu o caminho da defesa e dos Direitos Humanos, para combater o preconceito e a desigualdade.
Trabalhou junto com o Coronel da Reserva da PM/RJ Robson Rodrigues da Silva, que em sua rede social defendeu o trabalho e o caráter da parlamentar. Ele escreveu, entre outras coisas, que certa vez Marielle o procurou para discutir formas de ajudar policiais que sofriam de abusos, assédio moral e sexual além de outras violações de seus direitos.

A única vereadora negra da cidade do Rio de Janeiro honrou os seus 45602 votos. Em apenas 15 meses foram 13 projetos apresentados. Dentre eles destaque para Lei das Casas de Parto, Espaço Coruja, Espaço Infantil Noturno,
Lei contra assédio sexual nos ônibus,
 inclusão do dia da Mulher Negra no calendário oficial do Rio, dentre outros projetos voltados para comunidade LGBT, em especial.
Porém, após tanto trabalho, ela foi executada de forma covarde. Foi o momento mais triste do ano. Não somente pela interrupção abrupta da vida de uma vereadora honesta e lutadora. Mas, principalmente, pela covardia que viria a seguir. 

Nas redes sociais, “cidadãos de bem” começaram a compartilhar uma série de mentiras sobre a vítima. Áudio de traficante carioca falso falando que as roupas dos assassinos eram típicas de integrantes do Comando Vermelho, que teriam elegido ela e estariam “cobrando” o suposto apoio.  Mas nas imagens das câmeras de segurança não aparece nenhum dos assassinos. Apenas os carros. 
Marielle teria engravidado de Marcinho VP aos 16 anos, usava drogas, defendia bandidos...” tantas mentiras, que após desmentidas, líamos: “ah, mas ela era sapatona”. Sim, senhores, em 2018 ainda existem “cidadãos de bem” acreditando que chamar alguém de lésbica, seja uma ofensa.
O “cidadão de bem” também está representado na Câmara Federal. Em entrevista a rádio Jovem Pan, o Deputado Marcos Feliciano afirmou que havia vídeos de Marielle defendendo que traficante tem de ter fuzil para se defender da Polícia. Algo tão absurdo que só poderia sair da cabeça de alguém que teve a coragem de contar uma “piada” sobre uma bala na cabeça de um “esquerdista”, poucos dias após o assassinado da vereadora. O pior é saber que esse pastor repugnante representa milhares de pessoas.

Após a morte, as injúrias nas redes sociais, agora a mídia e o governo Federal querem “capitalizar” em cima do assassinato. Tentam usar o crime para justificar a intervenção militar no Rio. Exatamente o oposto do que defendia a vereadora assassinada. Tentam também despolitizar um crime explicitamente político, de uma política. Depois da “escola sem partido”, “esporte sem política”, agora chegou a vez do crime político sem política. E assim vão emburrecendo as novas gerações.

A luta por Direitos Humanos não é pra defender bandidos. Muitos menos ser contra os policiais. Quem pensa assim, ainda não entendeu o legado de Marielle.
Mas a sua luta continua. Seus feitos marcaram sua vida. Sua morte marcou o mundo. 
Marielle! Presente!

Por Erick Cerqueira
Publicitário filho e sobrinho de Policial Civil