Conheça a papiloscopia, ciência que estuda as impressões digitais

Identificação feita por meio da digital é uma das mais seguras e precisas.

Conheça a papiloscopia, ciência que estuda as impressões digitais
Papiloscopia

No Brasil, impressões digitais são usadas para identificação desde 1903
Em 2011, a população mundial bateu a casa dos sete bilhões de pessoas, segundo dados divulgados na época pela Organização das Nações Unidas (ONU). Mesmo que muitos indivíduos possam apresentar traços físicos semelhantes, uma característica será sempre única, mesmo em gêmeos idênticos: a digital. Chamada tecnicamente de datilograma, ou dermatoglifo, a impressão digital consiste no desenho formado pelas microelevações da pele das polpas dos dedos, denominadas papilas, quando são impressas em algum tipo de superfície lisa.

Do termo papilas surgiu um novo campo de estudo: a papiloscopia. Segundo destaca Rodrigo Meneses de Barros, papiloscopista da Polícia Civil do Distrito Federal, as impressões digitais foram descritas pela primeira vez em 1684, por um cientista europeu chamado Nehemiah Grew, tendo seus estudos seguidos pelo anatomista alemão Govard Bidloo e, em 1687, pelo fisiologista italiano Marcello Malpighi, um dos pioneiros na utilização do microscópio.

“Em 1788, o anatomista alemão Mayer observou que as impressões digitais poderiam ser utilizadas para fins de identificação humana. Quanto à sua utilização para a resolução de crimes, Henry Faulds, um médico escocês, foi o primeiro a utilizar as impressões digitais, tendo publicado um artigo que relata a descoberta no periódico Nature, em 1880”, conta Rodrigo, lembrando que, no Brasil, a identificação datiloscópica aconteceu oficialmente a partir de 1903.

Rodrigo explica que a identificação feita por meio das impressões digitais produz resultados seguros e objetivos. Segundo ele, a probabilidade de ocorrer algum tipo de coincidência entre traços de impressões digitais produzidas por indivíduos diferentes é extremamente remota. “Além disso, o método papiloscópico funciona, inclusive, para estabelecer a distinção entre gêmeos univitelinos, o que não é verdadeiro para os exames de DNA”, ressalta o especialista.

Identificação das impressões digitais
Para identificação de uma impressão digital, o papiloscopista forma suas conclusões com base em uma série de minúcias e características. Rodrigo conta que, basicamente, as impressões analisadas por um papiloscopistas são oriundas de três situações distintas. No caso da identificação civil, ou criminal, as impressões digitais são coletadas a partir das cristas de fricção (dermatoglifos) presentes na epiderme dos dedos e são associadas a outras características do indivíduo em um prontuário civil, ou criminal. Após esse procedimento, as impressões digitais serão armazenadas em um banco de dados.

Outra situação diz respeito à identificação cadavérica, também chamada de necropapiloscopia. Nesse caso, a identificação feita pelas impressões digitais é utilizada para estabelecer a identidade de um cadáver, ou confirmá-la, sendo fundamental à identificação de vítimas de homicídio para investigações criminais. “Por vezes, os cadáveres são encontrados em avançado estágio de putrefação, mumificados, ou carbonizados e, por conseguinte, são necessárias técnicas laboratoriais visando a recuperação do tecido degradado. O objetivo é acessar o padrão de cristas de fricção da epiderme, ou de papilas dérmicas da derme, ambos podendo ser utilizados para fins de identificação”, detalha o papiloscopista.

Por último, há a identificação de impressões latentes, que se dá quando a partir de um vestígio papilar, por vezes um fragmento de impressão digital encontrado em um local de crime, armas, ou objetos, se chega à pessoa que produziu tal impressão. “Nesse caso, a escolha do reagente químico adequado para a revelação das impressões é fundamental, além de um tratamento posterior da imagem”, ressalta o especialista.

Nilton Pfeifer, presidente da Associação Brasiliense de Peritos Papiloscopistas (ABRASPP), lembra que, para todos esses casos, a etapa crucial é chamada de “confronto papiloscópico”. Nela, o papiloscopista realiza análise, comparação, avaliação e verificação da compatibilidade entre a impressão questionada e a impressão padrão, disponível em um banco de dados de impressões digitais.

“O especialista observa uma série de minúcias microscópicas nas impressões, suas semelhanças e posições relativas, além da frequência conhecida das características, o que demanda experiência na área. Após essa etapa, ele confirma, ou rejeita, a individualização, e no caso de uma confirmação, produzirá o laudo, que constitui a prova técnica, resultado da perícia”, ressalta o presidente.

Uma vez que a impressão questionada, oriunda da coleta direta de um indivíduo, de um cadáver, ou da perícia em um local de crime, chega às mãos de um papiloscopista, ele procederá a uma espécie de “mapeamento digital” dessa impressão para posterior pesquisa em um sistema automatizado. “O sistema utiliza esse ‘mapa’ fornecido pelo papiloscopista para buscar imagens de digitais semelhantes em um banco de dados e oferece uma lista de candidatos com compatibilidade sugerida. O papiloscopista analisa cada caso e quando encontra a compatibilidade verdadeira, procede à elaboração do laudo”, explica Nilton.

Fisiologia da impressão digital
Quais aspectos fisiológicos contribuem para que uma impressão digital tenha uma boa leitura? Nilton destaca que é necessário que as “cristas de fricção” sejam proeminentes e que haja secreção na epiderme. Segundo ele, algumas pessoas apresentam “cristas de fricção” bastante rasas, sendo incapazes de produzir bons padrões para as análises.

Além disso, algumas doenças afetam a produção da queratina e, consequentemente, os desenhos papilares, como é o caso da síndrome de Nagali. O contato com materiais químicos e abrasivos agride a epiderme e pode trazer prejuízos temporários à produção de padrões papilares. O envelhecimento do tecido epitelial também tende a reduzir a qualidade das impressões produzidas”, ressalta.
Fonte: Globo ciência